Saudades, Hilda

Era 18 de março de 1979, eu tinha oito anos de idade e estava na casa dos meus avós. A sala em que ficava a televisão era no meio da casa, da comprida casa. Eu passava por ela, quando algo me chamou a atenção: uma mulher que falava com os mortos.
Era o programa Fantástico, da Globo, e fiquei atento à reportagem.

Foto: Eduardo Lemos


Muitas vezes, depois, voltarias à minha memória aquelas imagens, a voz daquela mulher.
Era 1987, e eu estava mais uma vez garimpando nas estantes do sebo Nossa Senhora do Socorro, que pertencia ao seu Roberto. Ele era ranzinza, ranzinza, mas a gente se dava muito bem. Ele chegou até a me dar alguns livros e revistas, coisas em que ninguém acreditaria, se eu dissesse. Fui apresentado a ele ainda criança, quando meu pai, indo comprar uns gibis, levou-me consigo, o sebo ainda num cubículo perto do endereço em que se instalaria depois — um cubículo.
Pois eu estava garimpando, quando me deparei com uma lombada fina e de cor chamativa: rosada, com letras douradas. Eu olhava todas as prateleiras, lendo todas as lombadas, folheando todos os livros que me parecessem interessantes. Nesse da lombada rosa com dourado, chamaram-me a atenção o texto da contracapa, o texto da orelha, que terminava assim: “Ninguém sairá ileso. Como não se sai, afinal, da própria vida” — texto do Caio Fernando Abreu.
Comprei-o, o livro A OBSCENA SENHORA D., de Hilda Hilst.

Foto: Jose Luis Mora Fuentes


Eu já estava apaixonado pela obra da Lygia Fagundes Telles, e tempos depois descobri que Hilda era sua amiga, sua melhor amiga.
Em 1990, Lygia apresentou-me a ela, e passei a frequentar a Casa do Sol.
Depois, bem depois, vi que ela era “a mulher que falava com os mortos”, e que tinha me fascinado tanto na infância.
Nas visitas que fiz a ela após eu ter começado minha “aventura mística”, muitas vezes ficávamos nos comunicando em silêncio, imersos no mistério, um em frente ao outro, em silêncio. Numa dessas ocasiões, ela me disse como eu estava mudado, “que bom!”, como eu estava mais profundo.
Eu disse “aventura mística”, e não uso esse substantivo no sentido de algo banal, mas no de algo que tem fim incerto, tem muitos riscos, é um lançar-se no escuro, mesmo buscando alguma iluminação.

Foto: Gal Oppido


Hoje é aniversário da Hilda, e eu agradeço por sua generosidade, por suas palavras, por sua presença nunca desapercebida, por sua coragem…
Saudades dos perfumes com que me presenteava, saudades de quando colocava as mãos no boião que havia sobre sua mesa de estudos e molhava-a num perfume que havia ali, um perfume sem idade, um perfume que parecia vindo do eterno, e passava as mãos molhadas em mim, perfumando-me;
Saudades das caminhadas pela Casa do Sol;
Saudades dos cachorros, em especial, do Marujo;
Saudades da Figueira;
Saudades de caminhar da rodovia até a casa;
Saudades de ler para trechos de seus contos, porque ela sempre me pedia para lê-los, gostava de me escutar lendo-os;
Saudades de fazermos planos para uma peça teatral baseada nos poemas de BUFÓLICAS;
Saudades de passar a madrugada adaptando A OBSCENA SENHORA D. para o teatro, e terminar chorando, o corpo tremendo, e ir dormir de manhã, feliz, feliz, e horas depois mostrar o texto para ela;
Saudades de ouvi-la dizer como eu deveria ler autores de linguagem exigente, como Eugênia Sereno, João Guimarães Rosa, Ricardo Guilherme Dick;
Saudades de quando ela telefonava para a editora Nova Fronteira, onde eu trabalhava, e me perguntava: “Nilton, é bom para você que eu telefone de vez em quando?”, era bom para mim receber telefonemas da Hilda Hilst, isso me ajudaria no trabalho, isso daria a mim algum status interessante?, era o que perguntava nas entrelinhas, porque me amava e queria me fazer bem;
Saudades de ouvi-la dizendo que eu pegasse na estante, para ler, o exemplar de CARTAS A UM JOVEM POETA, do Rilke, para eu saber se queria ser escritor;
Saudades de ela telefonar para minha casa e meu pai ou minha mãe ou minhas irmãs atenderem a ligação, e eu perceber um grande afeto entre eles;
Saudades de ela dizendo que eu fosse “ler Almanaque do pensamento, porra!”, porque eu não havida rido quando ela leu para mim um trecho de CARTAS DE UM SEDUTOR, que ela estava escrevendo, eu sem conseguir rir, porque aquele trecho falava de algo relacionado a sexo, e e u estava apaixonado por um rapaz e ele não me queria, e nada que dissesse respeito a amor ou a sexo iria me fazer rir;
Saudades de quando, anos depois, ela leu um poema meu e me disse: “você amou”.
Saudades de sua voz afetuosa, quente.
Saudades de coisas que não caberiam aqui, porque muitas coisas.

Foto: Eduardo Simões


Hilda, olhe por mim, olhe por nós.
Te amo.
Obrigado por tudo.

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